Quais os riscos do uso indiscriminado dos medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina para COVID19.

Atualizado: 27 de mai. de 2020



Primeiramente, não existem medicamentos ou outras terapêuticas aprovadas pela Food and Drug Administration dos EUA para prevenir ou tratar o COVID-19.

Existem, contudo, várias moléculas apontadas como possíveis candidatos terapêuticos. À data, considerando o conhecimento científico atual e as recomendações da OMS, encontram-se em investigação, entre outras, as seguintes estratégias terapêuticas:

Cloroquina (CQ) ou Hidroxicloroquina (HCQ), Remdesivir, Lopinavir e Ritonavir,

Um outro ponto a considerar é que os resultados dos estudos clínicos que estão sendo conduzidos em todo o mundo com esses medicamentos ainda são muito preliminares.


A hidroxicloroquina e a cloroquina são medicamentos orais, sujeitos a prescrição, que foram utilizados para o tratamento da malária e de certas condições inflamatórias. A hidroxicloroquina e a cloroquina estão sob investigação em ensaios clínicos para pré-exposição ou pós-exposição da infecção por SARS-CoV-2 e tratamento de pacientes com COVID-19 leve, moderado e grave.


Apesar de alguns estudos sugerirem boa eficácia em alguns parâmetros clínicos, outros sugerem inclusive risco à saúde dos pacientes com Covid-19 que usaram a medicação, há ainda relatos de efeitos colaterais potencialmente significativos.


Na última sexta-feira, dia 22 de maio de 2020, foram publicados, em uma das maiores revista científica "The Lancet", os resultados da maior investigação sobre os benefícios e segurança da utilização da cloroquina e hidroxicicloroquina para o tratamento do COVID-19.


O estudo envolveu mais de 96 mil pacientes infectados com coronavírus em seis continentes. Os resultados mostraram um risco aumentado de morte entre os pacientes que usaram cloroquina ou associações. Além disso, o risco de arritmia cardíaca é 2 vezes maior. Dos 6.221 pacientes tratados com hidroxicloroquina combinada com antibióticos, 8% (502) apresentaram problemas. No grupo controle, que não recebeu as substâncias, o índice ficou em 0,3%. De fato, esse estudo demostrou evidências estatisticamente robustas de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina pode não ser aquele que traz maiores benefícios a pacientes com COVID-19.

Além de todos esses fatores levantados acima eu, como profissional da área da saúde, farmacologista e apaixonada pela ciência da genética e farmacogenética, devo dizer que os medicamentos cloroquina e hidroxicicloroquina devem ser administrados com cautela em pacientes com deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase (G-6-PD). Os indivíduos que apresentam variações nesse gene G6PD podem ter riscos aumentados de reações como hemólise e anemia hemolítica.

Há mais de 400 variações da enzima G6PD já descritas, com base em manifestações clínicas e propriedades bioquímicas, e a deficiência de G6PD é a deficiência enzimática mais prevalente no mundo afetando cerca de 4,9% da população mundial (mais de 300 milhões de pessoas).

Além disso, as informações do Centers for Disease Control and PreventionCDC para médicos sobre opções terapêuticas para pacientes com COVID-19 discutem a hidroxicloroquina, mas não discutem o teste para a deficiência de G6PD nesse contexto. No rótulo do medicamento hidroxicloroquina aprovado pela FDA afirma que deve ser administrado com cautela em pacientes com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD)

Diante de todas essas informações, não faça uso sem expressa indicação médica, jamais tome esses medicamentos por conta própria, as consequências podem ser mais sérias do que se imagina! Estamos juntos pelo uso racional de medicamentos e isolamento social.




  1. CDC Centers for Disease Control and Prevention CDC Information for Clinicians on Therapeutic Options for COVID-19 Patients.

  2. Drugs@FDA: Drug Product Plaquenil (Hydroxychloroquine Sulfate)

  3. Pharmacologic Treatments for Coronavirus Disease 2019 (COVID-19): A Review.JAMA. 2020. Sanders James M, Monogue Marguerite L, Jodlowski Tomasz Z, and Cutrell James B. PMID: 32282022 DOI: 10.1001/jama.2020.6019

  4. Seden K, Gibbons S, Marzolini C, et al. Development of an evidence evaluation and synthesis system for drug-drug interactions, and its application to a systematic review of HIV and malaria co-infection. PLoS One. 2017;12(3):e0173509. Published 2017 Mar 23. doi:10.1371/journal.pone.0173509

  5. Mehra, Mandeep R., et al. "Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis." The Lancet (2020).







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